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  • Cristian Juliani Quiles

Selic: entendendo a taxa básica de juros da economia brasileira

14.06.2021 | Cristian Quiles


Você certamente já ouviu a palavra “Selic” em algum momento de sua vida. É um termo popular nos noticiários e nas discussões sobre economia. Contudo, é um conceito pobremente compreendido pela maioria das pessoas. Entender a Selic é fundamental na compreensão da economia brasileira, já que ela influencia diretamente fatores como a inflação, câmbio e até mesmo a bolsa de valores.


Nesse texto você entenderá o que é a “taxa Selic” e como ela pode impactar nossas vidas.


O que é a Selic?


Em primeiro lugar, é preciso diferenciar os termos “Selic” e “taxa Selic”. É comum ouvir na televisão expressões como “o COPOM subiu a Selic” ou “a Selic caiu”, se referindo à taxa Selic. Entretanto, Selic é um sistema (sistema especial de liquidação e custódia):


Grande parte dos títulos públicos e privados, como letras do tesouro nacional e CDBs, são escriturais, isto é, não são emitidos de maneira física. A fim de controlar a negociação desses títulos, o Banco central brasileiro desenvolveu o Selic em 1979, que é um sistema informatizado que executa a custódia dos títulos públicos de emissão do tesouro nacional, e efetua também o registro e liquidação das operações com esses papéis.


No Selic as operações são liquidadas uma a uma em tempo real e todos os títulos são emitidos de forma escritural (eletrônica). A taxa de juros apurada nas negociações destes títulos é chamada de taxa Selic.


Em suma, Selic é um sistema de liquidação e custodia de títulos públicos, enquanto a taxa Selic é a taxa apurada na negociação destes títulos.


Como a taxa Selic é calculada?


A taxa Selic é calculada com base na média ponderada das taxas de juros das operações envolvendo compra e venda de títulos públicos federais. A taxa é expressa ao ano. Para compreender melhor o cálculo da taxa, considere o exemplo ilustrativo a seguir:





No exemplo, são dadas 4 operações e seus respectivos volumes diários. Como dito, a taxa efetiva é calculada pela média das operações, ponderada por seus volumes. No caso, foi obtida a taxa diária (0,055063%). Para obter a taxa Selic anual, utiliza-se a seguinte fórmula:






Em nosso exemplo ilustrativo, temos:







Selic: a taxa básica de juros da economia brasileira


A taxa Selic é tida como a taxa básica de juros da economia brasileira, ou seja, é uma referência para a formação de juros de todo o mercado brasileiro. É considerada uma taxa livre de risco, que são aplicações com mínima (ou nenhuma) probabilidade de inadimplência. Isso ocorre pois a taxa Selic é lastreada em títulos públicos, garantidos pelo governo federal, ou seja, se refere aos títulos de dívida emitidos pelo governo.


Quanto maior o risco maior o retorno

Os títulos públicos são considerados os investimentos com o menor risco dentro da economia brasileira, pois, como dito, são garantidos pelo governo federal. Desse modo, os demais investimentos presentes no mercado (CDBs, ações, debêntures, etc...) são considerados mais arriscados e, portanto, devem oferecer uma taxa de retorno (juros) superior à Selic, taxa que está atrelada aos títulos públicos. Esse retorno “a mais” é comumente chamado de “prêmio pelo risco”, como se observa a seguir.


Juros pago por um CDB* = Taxa Selic + prêmio pelo risco


* Há outros fatores que determinam a taxa desses títulos, mas, em todo caso, a remuneração (juros) deve ser superior à Selic. *CDB foi usado como exemplo no quadro acima, mas a regra se aplica para qualquer título presente na economia.


Quem define a taxa Selic?


O comitê de política monetária (COPOM), órgão do banco central, define periodicamente (a cada 45 dias) uma meta para a taxa Selic. A taxa Selic real tende a convergir em direção à meta, visto que o banco central pode efetuar operações de compra e venda de títulos públicos no mercado, além de outras operações de política monetária, a fim de calibrar a taxa.


Como a Selic interfere na economia brasileira?


A taxa Selic apresenta grande influência na inflação. Como dito anteriormente, a Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Conforme a Selic varia, todas as outras taxas de investimentos e financiamentos presentes no mercado tendem a variar na mesma direção e proporção. Desse modo, quando a Selic aumenta, os empréstimos disponíveis na economia brasileira tendem a se tornar mais caros (juros maiores) e os investimentos (títulos públicos, CDBs, etc...) se tornam mais atrativos.


Com isso, as pessoas passam a adquirir menos empréstimos e a investir suas poupanças em títulos públicos ou privados, o que se reflete em uma diminuição da demanda por bens e serviços dentro da economia brasileira (diminuição do consumo). O contrário também se verifica, sendo que uma Selic mais baixa torna os empréstimos mais baratos e os investimentos menos atrativos, resultando em um aumento da demanda.


Em síntese, o aumento da taxa Selic tende a gerar uma diminuição da demanda agregada dentro da economia e, portanto, um aumento da inflação. Já uma diminuição da Selic gera aumento da demanda agregada e, consequentemente, um aumento da inflação.


Histórico da taxa de juros no Brasil


Na última reunião do COPOM a meta definida para a taxa Selic foi de 3,5% ao ano, um nível abaixo de sua média histórica. Como se pode observar na imagem 2.0, a taxa Selic apresenta cotações elevadas ao longo de seu histórico, mantendo-se em níveis superiores a 10% ao ano na maior parte do tempo.


FONTE: BACEN


Entretanto, desde 2016 o COPOM vem reduzindo a meta para a taxa Selic. Em agosto de 2016 a taxa Selic era 14,25% e em 2020 a taxa chegou à 2%, um nível historicamente baixo para a economia brasileira.


FONTE: BACEN


Por que a Selic está baixa?


Como observado no quadro anterior, a Selic vem caindo de maneira significativa nos últimos anos, mas por quê? Desde 2016 o COPOM vem estipulado metas mais baixas para a Selic a fim de estimular a economia brasileira. Como vimos, uma Selic mais baixa tende a gera um aumento no consumo, o que pode estimular o crescimento do PIB no curto prazo.


Movimentos recentes e perspectivas futuras

Desde o início de 2021 o COPOM tem elevado a meta para a taxa Selic. Conforme citado anteriormente, a taxa Selic é geralmente mantida acima dos dois dígitos. Em 2020, no entanto, a taxa atingiu 2% ao ano, nível historicamente baixo para os padrões brasileiros.


O problema é que níveis como esses podem se mostrar insustentáveis no médio e longo prazo, gerando consequências negativas para a economia brasileira: primeiramente, quando a taxa Selic está muito baixa, as pessoas tendem investir em títulos e produtos financeiros de maior risco, em busca de maiores retornos. Há um maior fluxo de capital em investimentos especulativos e com maior alavancagem, o que pode comprometer a estabilidade econômica.


Em segundo lugar, há uma fuga de capital do país, visto que os títulos brasileiros, balizados pela taxa Selic, oferecem uma remuneração pouco atrativa em relação a títulos emitidos por países desenvolvidos que, ao mesmo tempo que oferecem um retorno semelhante, possuem um risco menor. Essa fuga de capital tende a gerar um aumento do câmbio (dólar), devido à diminuição de moeda estrangeira no país.


Além disso, como visto, a taxa Selic tem relação direta com os níveis de inflação. Uma Selic baixa pode resultar em um aumento acelerado da inflação, ocasionado principalmente pelo aumento da demanda agregada.


Para que a taxa Selic seja minimamente atrativa aos investidores de títulos públicos brasileiros, ela deve apresentar níveis que remunerem o investidor acima dos títulos do tesouro americano (considerado o título mais seguro da economia mundial, pois é garantido pelo governo americano), além de remunerar um prêmio pelo risco Brasil (risco país) e ainda a perda com a inflação, como se observa a seguir.


Taxa Selic a níveis sustentáveis: Taxa de juros EUA + Risco país (Brasil) + (Diferencial inflacionário – EUA x BR)


Desse modo, espera-se que a taxa se Selic se eleve ainda mais, conforme consta a seguir:

T-Bounds (tesouro americano): 0,25% Inflação USA: 1,67% Inflação BR: 4,81% Risco BR: 2,99% Selic Estimada* = 0,25% + 2,99% + (4,81% - 1,67%) = 6,5% Além disso, estimativas encontradas no boletim Focus (relatório econômico semanal divulgado pelo banco central), apontam para uma elevação da taxa Selic.


Estimativas acerca da taxa Selic: 2021: 5% 2022: 6% 2023: 6,5% Fonte: Boletim Focus (Bacen)


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